domingo, 4 de dezembro de 2011

Eternidade

                Aquele silêncio desejado durante o dia agora causava incomodo, os pensamentos passavam rápidos por seus olhos fechados. Virou-se para o lado tentando enfim adormecer, mas, percebeu com irritação que sua tentativa havia sido mal sucedida. Virou-se novamente e não foi capaz de conter as palavras que lhe escapavam como o ar que passava automaticamente por seus pulmões:
                -Você nunca teve medo de não nos encontrarmos? De passarmos lado-a-lado procurando direções diferentes? -Surpreendeu-se quando o ouviu responder com um sussurro, talvez o tivesse acordado com toda aquela movimentação.
                -Para falar a verdade, sempre soube de coração que nos encontraríamos, nem que precisasse procurar por diversos mundos, através dos séculos, nossos caminhos certamente se tornariam o mesmo.
                O silêncio tornou a reinar, ouviu sua própria respiração, os pensamentos continuavam velozes. -Boa noite! - ouviu-o dizer. Sorriu, naquele momento não sentia sono, mas, seu corpo cansado merecia um descanso. Tentou ritmar sua respiração a dele e  fechou novamente os olhos, o dia seguinte logo chegaria. 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O presente

Andava apressado, olhando no relógio a cada instante, correndo contra o tempo. Tentou ligar para Carmen, mas só dava caixa postal. Sabia que não conseguiria chegar no horário combinado. Receoso, corria por entre os carros que estavam parados no trânsito. Seus olhos fixos nas largas passadas. Continuava a tentar ligar, mas ainda em vão.
Pensou em pegar um táxi, mas com aquele congestionamento não adiantaria.
Viu uma vitrine, parou diante dela e sorriu. Ali estava o presente perfeito! Ela iria amar! Comprou-lhe um lindo casaco, em couro legítimo, última peça na liquidação!
Já estava mais do que atrasado, mas agora não importava mais!Tinha o presente ideal, tinha um lindo cartão e na ponta da língua a poesia que decorara.
Chegou meia hora atrasado, procurando Carmen em todas as mesas do restaurante, mas não a encontrara.
Teria ido embora? Pensou triste, com o rosto abatido.
Às voltas com seus pensamentos, sequer percebeu quando um papel pousou em sua mesa. Era um bilhete escrito com batom: Estou a tua espera, não saia daí!
Seu coração disparou, um sorriso brotou em seus lábios.
Pediu um drink, para relaxar um pouco enquanto esperava pela amada. De repente, todas as luzes do restaurante apagaram-se e sem entender nada, Júlio levantou-se.
Uma claridade surgiu em sua frente, como se alguém andasse com um castiçal em mãos..
Ouviu o som de um violino, vindo do fundo do restaurante, e no centro, uma luz azulada fez surgir um rosto conhecido, era Carmen, segurando um lindo ramalhete de lírios brancos, enquanto o violinista aproximava-se.
Júlio não sabia o que estava acontecendo, não conseguia entender e nem mover-se.
Carmen foi chegando cada vez mais perto, deu-lhe um abraço e sussurrou em seu ouvido:
"Feliz 25 anos de casamento!"

domingo, 20 de novembro de 2011

Reencontros parte II


(...) Decidiu tomar um banho, vestir-se e neste meio tempo, treinou mentalmente o que diria ao filho..
A hora chegou..

Caio estava lá, lindo, com um trançado no cabelo que combinava com sua camiseta vermelha. Já parecia um rapazinho!Como crescera!Seu sorriso continuava o mesmo, fazendo covinhas na bochecha que deixava qualquer um apaixonado. Este era seu filho, o filho que há tanto tempo não via e quase deixou para trás. 
Carolina correu ao seu encontro, abraçando-o fortemente, tirando-o do chão e colocando-o em seus braços! Como sentia falta daquele abraço!Daquele sorriso encantador, do seu perfume, do contorno de seu rosto..como sentia falta da vida ao lado dele!
Os dois choraram quando estavam frente a frente, era a alegria invadindo-lhes o coração.
A mãe prometera-lhe que nunca mais ficariam longe um do outro, o que foi respondido com um abraço bem apertado e um beijo estalado na bochecha esquerda.
A vida, enfim, voltaria a circular entre seus poros, sua alegria retornaria aos olhos e em meio a lágrimas, pode compreender o quanto era importante voltar a viver, não apenas por seu filho, mas, principalmente, por si.

sábado, 19 de novembro de 2011

Reencontros parte I

O tempo corria sem voltas e não sabia mais o que fazer. Era a primeira vez que sentia este aperto em seu peito. Era a primeira vez, desde os últimos 2 anos, que reencontraria seu filho.
Não estava confortável com esta situação, pois tantas coisas tinham acontecido desde aquele dia. Carolina bebeu demais aquela noite, por conta da briga que teve com seu marido, estava cansada, exausta de tantas traições, tantas mentiras, tantos desafetos.
Sentou-se no chão do banheiro, pegou todos seus remédios na primeira gaveta e tomou-os. Tomou-os como quem dá um último adeus a sua vida. Como quem não espera mais nada, apenas um alívio no peito. Depois disso foi à geladeira, pegou uma garrafa de vinho que estava lá desde seu aniversário, duas semanas atrás, e brindou sua morte. Brindou não à derrota, mas sim à liberdade!Estaria livre para sempre..
Contudo, as coisas não aconteceram como o esperado! Ricardo voltou ao apartamento para buscar algumas peças de roupa e encontrou-a desmaiada no chão da sala. Tão triste, tão deprimente, tão frágil ela estava agora, e o que ele faria? Sabia muito bem ser o culpado daquela situação, sabia que deveria ter sido sincero com ela, com seus sentimentos.
Ligou correndo pedindo socorro, não sabia o que fazer, mas ajoelhou-se ao seu lado, pedindo à Deus que ela ficasse boa, que um dia a perdoasse, mesmo que não voltasse a viver com ele.
A ambulância chegou, levaram-na as pressas ao hospital e conseguiram trazê-la à vida, mas que vida, perguntava-se ela, inconscientemente?
Lucas, seu filho, tinha apenas 2 anos quando tudo isso aconteceu. Não entendia o sumiço da mãe, que passou por uma série de tratamentos e acompanhamentos, até que estivesse pronta para voltar a viver, para se livrar de uma vez por todas de tudo o que lhe tirava o ânimo, a alma.
Estava com medo, medo que ele não lhe reconhecesse mais, que não quisesse estar com ela..não sabia ao certo como agir, o que lhe dizer..era tão pequeno ainda!
Decidiu tomar um banho, vestir-se e neste meio tempo, treinou mentalmente o que diria ao filho..
A hora chegou..


continua

Primeiro amor II

Ela estava linda naquela manhã, usando um vestido azul, que deixava seus ombros à mostra. Olhei em seus olhos e tive certeza: era a mulher da minha vida.
Saímos de mãos dadas, tentando não olhar muito para as pessoas que nos mediam da cabeça aos pés. Sorrimos um pouco de tudo aquilo, já fazia mais de 2 meses que estávamos longe, e agora nada disso importava!
Nos apaixonamos na época  da faculdade, ela sempre linda, com seu sorriso leve, como quem está sempre de bom humor com a vida e eu, sempre pensando em encontrar um emprego e sair da casa de meus pais.
Sempre me perguntei se nosso namoro daria certo, se tudo não era apenas uma ilusão.
Enquanto caminhávamos lado a lado, pensava em nosso futuro, em nossa família, em nossos sonhos todos, construídos ao longo destes 5 anos. A alegria de estar ao seu lado tomou conta de meu corpo, senti um leve arrepio subindo por minhas costas. Dei-lhe um breve beijo em sua testa, o que ela me respondeu com um suspiro, uma confidência em meu ouvido:
"Eu amo você"

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Natsukashii¹

Natsukashii¹ - nostálgico 


      Sorriu assim que nossos olhares se encontraram, e pensar que já se passou tanto tempo desde a primeira vez que isso aconteceu, daquela vez senti que o tempo havia parado enquanto apreciava seu sorriso, seu olhar, quando percebi o que acontecia senti-me corar, procurei avidamente por um ponto interessante em meus sapatos como desculpa para desviar a vergonha que sentia. Ouvi sua risada abafada e de canto de olho pude ver  um sorriso divertido em seu rosto.
-Ah, natsukashii - foi o que escapou pela minha boca enquanto você observava eu me perder em nossas memórias.
-Ei, oi! Pare de fazer corpo mole e venha me ajudar com essas coisas, elas pesam! -você disse entre uma reclamação e uma risada. Com meu coração aquecido me levantei e fui ao seu encontro.

Himitsu¹

Himitsu¹ Segredo
Himitsu dayo ne?²- É segredo!
Anata ga suki³- Gosto de você


-Shh, himitsu dayo ne?² - você sussurrou, nossos rostos cada vez mais próximos e a curiosidade para conhecer tal segredo crescendo cada vez mais - Anata ga suki!³

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Primeiro amor

Caminhávamos lado a lado nesta manhã. Riamos de tantas histórias, recordações do passado, das loucuras que fazíamos..que alegria invadiu minha alma!
Você me sorriu, pensei em dar-lhe um breve beijo, mas contive-me e também sorri.
Peguei em sua mão, sentindo-a tremer levemente.
Eu sabia o tempo todo!Só demorei a entender.
Eu te amei desde o primeiro dia. E sabia que você também.

Um adeus

Meu coração sangrava por dentro, angustiada, não sabia mais o que fazer.
Estava presa em um sonho ruim, ou a realidade tinha tornado-se tão sombria assim?
Seu telefonema aquela noite me tirou o sono, e desde então não consigo mais dormir..
É incrível o poder que tens sobre mim..o que fazer?É esta pergunta que mais assola minha mente...
Precisarei partir, você me entenderá, pois já há muito tempo me deixou para trás..
Nunca esquecerei seus olhos me fitando através da janela.

sábado, 22 de outubro de 2011

Ichibyou Kiss ¹

Os olhos dele vidrados na televisão acompanhando o filme que já haviam visto diversas vezes a desencorajou a dizer qualquer coisa, não entendia como haviam chegado a tal ponto. Sentou-se ao seu lado em silêncio, o sofá não era grande, mas a distância inconsciente dos corpos era inevitavelmente percebida. Pensamentos perdidos, adjetivos e substantivos que não encontravam um verbo em sua mente permitiam-lhe apenas encarar aquela figura ali tão próxima porém impossível de tocar.


Talvez por sentir-se vigiado ele olhou em sua direção, olhos severos que buscavam respostas. Um beijo rápido dela. Os olhos que ainda buscavam respostas agora demosntravam uma clara surpresa.

-Mou ii yo²!- disse ela encarando-o com firmeza – Por favor...

Ele sorriu como a tempos não fazia, quaisquer que teriam sido os motivos para estarem daquela forma seu coração a muito já esquecera. A resposta que seu lado consciente ordenou que usasse naquele momento morreu antes mesmo de chegar em sua garganta, sem que percebesse já a havia puxado para si.

¹ beijo rápido
² já chega

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Escolhas

O tempo estava passando lentamente aquela manhã. Quando atendeu o telefone, sabia que este dia seria diferente. Vestiu um moletom batido, prendeu o cabelo em um rabo de cavalo e saiu em direção ao parque.
Gostaria de caminhar um pouco, espairecer as ideias e colocar todos seus pensamentos no lugar antes do anoitecer. Pensou em como sua vida vinha sendo tão depressiva nestes últimos tempos.
Tentou recordar a última vez que se divertiu com seus amigos: mal conseguiu se lembrar de quando haviam se encontrado, quem dirá de quando havia se divertido!
Continuou sua caminhada, mas já sentia-se cansada..cansada de tudo, de sua vida, de suas andanças, de suas instabilidades emocionais e do modo como estava encarando sua separação.
Sentou-se em um dos banquinhos, próximo às árvores do parque, onde conseguia ver o lago, as crianças brincando com bola, alguns casais andando no pedalinho.
Ficou pensando em seu último ano, em seu casamento frustrado, em como sentia-se sozinha..não sabia o que era mais doloroso, ter descoberto a traição do marido ou aquela vida vazia que vivia antes disso.
Seus olhos encheram-se de lágrimas, a dor brotava em seus poros, como se todo seu corpo estivesse coberto destes sentimentos cinzas.
Nada ali lhe fazia sentido, mas agora não era mais hora de chorar, pensou ela.
Era o momento exato de ir a luta, de tentar sair deste buraco, antes que se afundasse definitivamente.
O telefone tocou novamente, ela precisava correr para casa, tomar um banho e arrumar-se para este compromisso tão importante.
Acabara de receber uma proposta de emprego, em outro país, para levar o novo produto de sua empresa à filial francesa. Ficaria por lá pelo menos durante 1 ano.
Era talvez a grande oportunidade de sua vida, o tempo ideal para as transformações de que há tanto tempo necessitava. Contudo, não estava segura de que era isso que queria.
Como iria viver tão longe, num país estranho, com uma língua que não lhe era familiar - falava inglês, mas isso não lhe garantiria nada na França - longe de sua casa, de seus filhos.
Pensou nas crianças por um tempo..como tinha sido uma péssima mãe!Já fazia duas semanas que não as buscava na casa da avó, não conseguia tempo para isso, sequer tinha ânimo, estava esgotada.
Qual seria a solução?Como resolver seu futuro, se tudo tão incerto e tão instável lhe assombrava a mente, como fantasmas do passado que teimam em ficar.
Seu coração palpitava, precisava de um tempo, precisava de algo que não conseguia enxergar, precisava abrir sua mente e seu coração para conseguir voltar a viver de verdade.
Chorou na mesa, em meio à reunião!O que lhe importava que lhe vissem tão frágil? O que lhe importava os julgamentos de quem não sabia o quanto sentia-se fracassada e confusa?
Pediu licença e foi ao banheiro, lavou o rosto, e enquanto olhava para o espelho, fitava sua imagem cansada, morna..
O que fazer? O que fazer?
Tentou pensar em uma solução..
Ligou para sua filha, Ane, que estava indo para a casa do pai. Ela já havia completado 13 anos, conseguiria entender suas angústias? Talvez pensasse que não as amasse, talvez entendesse o quanto isso era importante em sua vida.
Ane conversou com a mãe sobre a vida na casa da avó nestes últimos dias, contou o quanto estava empolgada em ir para a casa do pai, pois ele a levaria para a praia, junto com sua irmã mais nova Samanta.
Contou sobre a escola, sobre o novo paquera do 8º ano, sobre as amigas...
Precisava tomar uma atitude, viajar? Ficar? Tentar reconstruir sua vida, sair deste calabouço que construíra com suas próprias mágoas? Abandonar tudo e ter um tempo para si?
Chegou a uma conclusão: precisava viver!E a vida lhe era urgente e cara!
Saiu do banheiro e resolveu: A vida não pode mais esperar.

sábado, 15 de outubro de 2011

Flor

Na beira da estrada, encontrei uma pequena flor, nascendo tão singela, escondida entre o mato alto.
Olhei para o pequeno broto, pensando na grandiosidade da vida que ali estava escondida, latente.
Pensei por alguns segundos em como aquela flor era sortuda, talvez não fosse fácil manter-se viva em condições tão adversas...talvez já tiveram muitas flores, naquele mesmo local, morrido e dado espaço a outras, que também não tinham a mesma sorte desta pequena flor.
Senti um impulso de levá-la comigo, quem sabe colocá-la num vaso, replantá-la no jardim de minha casa.
Olhei em volta, e só existia aquela pequena flor..tão só, mas tão viva e bela.
Senti vergonha dos meus pensamentos, eu, tão solitária neste caminhar, encontrei algo que me deu uma alegria. Mesmo em um meio tão contrário, lá estava ela, pulsando por vida, buscando viver..
Saí de lá com lágrimas nos olhos e a certeza de que precisava me agarrar com todas as forças a este fio de vida que ainda pulsava em meu peito, para ser tão bela como a singela flor do caminho.

Lágrimas

O vento cortando meu rosto, enquanto as lágrimas corriam, pensava comigo: por onde ir?
parece que o tempo passou tão depressa e aquele sentimento já não me era mais suficiente..será que um dia te amei de verdade?foi apenas ilusão ou um sonho bom?não sabia mais o que pensar, o que fazer..
estou tão confusa com todas as ideias que se sobrepõe em minha mente, e o que sobra? talvez correr agora já não adianta mais, perdemos o passo, o compasso, as horas..nada mais será o suficiente.
caio em um abismo, dentro de mim, como se tudo o que tinha construído até então ruísse em minha mente.
nada mais será o suficiente.
Debaixo do chuveiro, pergunto-me o porque de tantos sonhos serem destruídos, sua ausência hoje me traz o consolo da solidão. Estar sozinha talvez seja o melhor a fazer. Será que um dia nossos caminhos ainda serão unidos por algum fio invisível?Será que um dia você reconhecerá meu rosto na multidão e permanecerá parado a me olhar?
O tempo parou neste instante, enquanto eu pensava, sentada no chão do banheiro. Vi em minha frente algo tão estranho, tão vazio e repleto de medo e angústias, que meu coração chorou, sangrou..
Senti minha alma doer, como se enfiassem em mim uma espada, que transpassasse meu ser..
Não faz mais sentido ficar aqui, agora o sol já se pôs e o melhor a fazer é dormir, dormir e entrar em um mundo onde o desespero calado dos olhos seja apenas uma vaga lembrança.
Sair daqui..é isso o que preciso..e acordar com o primeiro raio de sol invadindo meu coração, cobrindo meus pensamentos de uma luz que me transporte a outro Eu.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Uma história...


“Memórias de uma infância imaginada”
                                 Por: Erika Garcia

Quando ela sentou-se ao meu lado, não sabia direito o que lhe dizer ou como agir. Desde criança corríamos pelo quintal atrás de bolhas de sabão que davam ao céu um novo colorido.
Nos olhamos brevemente, sorrindo de canto, parecia que o tempo não havia passado. Senti o cheiro do pão fresquinho saído do forno que comíamos sentadas na soleira da porta, com a manteiga derretendo de tão quente que ele estava.
Todas as tardes nos escondíamos atrás da árvore do quintal da vovó, para podermos brincar até o por-do-sol. Recordo-me de minha avó gritando pela janela:
- “Sai daí guria! Já tá na hora do banho!”
Mas não queríamos ir embora! Tinhamos nossos segredos e mistérios e aquele quintal era nossa fortaleza. Lá podiamos ser as mais corajosas cavaleiras do reino. Podiamos ser fadas e bruxas. Na primavera éramos as princesas do reino Margarida, no outono corríamos pelo quintal à procura de folhas secas para prepararmos a comida de nossas “filhas”…fazíamos de conta que voávamos pelo espaço, que éramos apresentadoras de TV, que um dia seríamos presidente do Brasil.
Quando ficava muito tarde, corríamos pela calçada para pedir à mãe da Bia para que a deixasse dormir em casa. Fazíamos a cara de criança chorona mais amável do mundo e quase sempre a convencíamos com um: “Vai tia, eu cuido da Bia, faço ela escovar os dentes antes de dormir e prometo que não ficaremos acordadas até de madrugada!”
É claro que conseguiamos fazer com que ela deixasse a Bia dormir em casa! Nesta época, eu morava com minha avó e aos finais de semana ia para a casa dos meus pais. Durante a semana achava um tédio ficar sozinha e tratava de logo que saísse do colégio passar na Bia para buscá-la para brincar. Ela morava com a mãe, mas passava o dia com Toninha, uma moça novinha que cuidava dela enquanto dona Cássia, mãe da Bia, trabalhava.
O dia que conheci Bia foi o mais divertido da minha vida! Tínhamos 5 anos e era a primeira vez que passava férias na vovó. Estava na calçada, brincando de amarelinha, quando Bia passou com sua mãe. Ela aproximou-se de mim e disse:
- “Duvido que você consiga chegar naquela árvore antes de mim”
Achei-a tão petulante! Na época eu não sabia o significado desta palavra, mas sem dúvida se soubesse, teria lhe dito isso!
Corri em sua frente, mas quando fui encostar na árvore, escorreguei e cai de joelhos no chão. Foi o maior berreiro! Chorei mais do que bebê quando toma injeção. A Bia correu para me levantar, mas eu só sabia chorar! Ela sentou-me na calçada e soprava meu joelho tão docemente que parei com o berreiro para ver como ela me cuidaria. Bia desde os 5 anos já sabia como cuidar de minhas feridas!
Correu em seu quintal e veio com um copo de água para lavar meu machucado e um pedaço de papel higiênico para fazer o curativo. Parei de chorar, ela sorriu de canto e disse:
- “Não falei que chegaria na árvore primeiro?”
Demos risada e vovó chegou para ver o que eu estava fazendo com o rosto cheio de lágrimas e a perna enrolada no papel. Levantei-me devagar, abracei Bia e lhe disse: “Você gosta de brincar de casinha?” Ela nem respondeu, correu para sua casa mais uma vez, antes que eu pudesse pensar o porque de seu sumiço, ela voltou com duas bonecas de pano que sua mãe lhe fizera.
Pedi à vovó que nos fizesse um bolo de fubá, para comer com leite. Bia adorou a ideia! Era seu bolo favorito, e se tornou o “nosso bolo”. Dona Cássia pediu a vovó para olhar Bia enquanto fosse ao mercado e nós duas pulávamos no sofá de tão felizes! Começou aí uma amizade que duraria a vida toda!
Enquanto dávamos comida para nossas bonecas, vovó preparava nosso lanche. Pegamos uma caixa de sapato e montamos uma pequena casa, desenhada com canetinha as janelas e as portas. Entrei escondida no quarto da vovó e peguei seus colares e alguns batons, afinal agora éramos mães de duas meninas e precisavamos nos cuidar!
Bia passou o batom em mim, mas eu ria tanto que ela me riscou até o queixo! Trocamos de roupa uma com a outra, para fazer de conta que tinhamos nos arrumado para sair com as bebês. Estavamos radiantes, até que Bia não quis mais me emprestar sua boneca, pois dizia que ela chorava muito ficando em meu colo!
- “Imagina Bia! A Sofia me ama e eu sou a mãe dela!”
-“Não é não! Ela quer ficar no meu colo e você não sabe cuidar dela”
- “Sei sim”E ela me disse que odeia você!”
-“E eu também odeio você!”
Bia saiu correndo quarto a fora e eu não sabia o que fazer. Comecei a chorar e vovó correu no quarto, para ver o que estava acontecendo. Expliquei-lhe tudo aos prantos e ela abraçou-me carinhosa. Não era preciso falar nada, pois ela sabia como ninguém me acalmar.
Fomos ao encontro de Bia no quintal e vovó nos fez pedir desculpas e nos abraçarmos. Foi a primeira de nossas brigas, mas também a última.
Passaram anos deste este dia e já fazia alguns meses que não nos víamos, mas agora lá estava ela, sentada ao meu lado na sala do hospital, aguardando notícias da vovó. Éramos mais do que amigas, éramos irmãs e sentíamos a mesma dor neste momento. Relembramos das grandes aventuras da infância feliz que tivemos no quintal daquela enorme casa, que hoje já não era mais tão cheia de cores e sons. Nos abraçamos bem apertado, Bia secou minhas lágrimas com um beijo em cada lado e falou baixinho:
-“A vovó sempre estará conosco!”
Eu sabia que era verdade, então não havia mais nada a fazer, apenas silenciar o coração.

Texto escrito para o curso: Pedagogias das Infâncias - Outubro, 2011.

domingo, 25 de setembro de 2011

Desenhando: Aleatoriedades

Eri e Pri largadas no "sofá" brincando no TuxPaint.
"Acabaram de organizar a mudança?" Claro que não! XD

Desenhando: Cancela

A última parte não aconteceu, mas a cancela bateu mesmo na cabeça da moça.

sábado, 17 de setembro de 2011

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Desenhando: Fazendo amizade


Agradecimentos: Ao professor da Eri por apresentar textos, vídeos e histórias tão encantadoras, a Eri por compartilhar o conhecimento, a Juju que não deixou ninguém dormir depois de ouvir as histórias, e ao Sumô por me lembrar que o Paint existe e pode ser usado para fazer tirinhas.
Comentários: Até que ficou bonitinho e bem parecido com o original. Gostei...

domingo, 11 de setembro de 2011

Antiguidades na gaveta

"Vou-me embora pra Pasárgada, lá sou amigo do Rei..." "Partir, andar, eis que chega aquela velha hora tão sonhada, as luzes de velas acesas.." ...o que tudo faz aqui deste jeito? Acabei de arrumar a sala e está tudo bagunçado de novo! Tome cuidado com os cacos de vidro no chão, os estilhaços podem entrar em seu coração e sangrarem sua alma. Mas no final das contas, perder e ganhar é a mesma coisa, dá tudo no mesmo, porque as lágrimas cobrem teu rosto nesta noite..se tudo se resumisse a isso, era fácil traduzir em palavras..mas tudo é tão maior e mais doido..a alegria não congela o tempo, talvez o faça dissolver entre seus dedos..e ai tudo se esvai, não dá para parar, e nem tem como prendê-lo, porque já escoou pelo ralo do chuveiro..o tempo é impiedoso, mas a medida exata de todas as coisas..ou não! não quero saber se tudo isso levará a lugar algum como se fosse fácil prever o tempo de tudo.."que se danem os nós" "E eu que pensei que eu sabia tudo, mas se é você eu não sei nada..veio a chuva e ficou tudo tão desigual"
Melhor falar com o coração e calar nas palavras, os olhos se encarregam do que faltar..e ai? nada mais mudou ne? Acho que quando acordei e vi que estava no quarto, me dei conta de que talvez não esteja enganada: As ilusões alimentam os sonhos e os sonhos alimentam a vida.
É difícil lidar com a miséria da humanidade e rir da própria ridicularidade! Como somos medíocres..nada ficará deste jeito..mudar dói, cansa, enjoa..e que se danem os nós..

Texto de 2008, encontrado no fundo da gaveta..

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Ligações


O despertador tocou, olhou ao redor, não lembrava-se de como tinha ido parar na cama, a última coisa que sabia era que estava atirada no sofá, vendo algum filme antigo que passava na televisão. Estava extremamente cansada,mas feliz por hoje ser um dia tão especial.
 Ainda com preguiça levantou-se e rumou para o banehiro, como desejava não precisar sair da cama desesperadamente todas as manhãs. Tomou um banho rápido e sentiu a fome lhe alcançar,puxando pela memória não havia comido na noite anterior,estava chateada em tal ocasião,sentia-se sozinha e cansada,sem vontade de preparar algo para jantar,deitou-se no sofá e como se não houvesse passado muitos minutos
 Preparou seu café, sentou um pouco na rede, olhando para o sol que estava nascendo tão belo que lhe fez sorrir pelo canto da boca, enquanto comia um pedaço de bolo. Precisava organizar a casa bem rápido, hoje era o aniversário de sua melhor amiga, iriam fazer uma festa surpresa em sua casa, depois que a buscassem no aeroporto. Ela havia passado muito tempo fora, e voltaria hoje!
Com certeza aquela festa a tiraria de seus pensamentos tristes, quando estavam juntas não havia tempo para lamentações, esse tempo era tão pouco que precisavam aproveitar ao máximo. Com esse pensamento levantou-se e anotou na lista de apoio para usar no supermercado que precisava comprar energéticos e outros produtos que facilitassem passar o maior período possível acordadas. 
 Ligou para 4 ou 5 amigas, para confirmar se estava tudo certo com o bolo e as comidas. Saiu de casa apressada, para comprar tudo o que faltava, enquanto ouvia pela décima vez o recado que o namorado deixara na noite anterior em sua caixa postal. Ele estava terminando tudo, assim mesmo, por telefone! Achava aquilo o maior absurdo, tentou digerir todas aquelas palavras tolas sem chorar novamente
Impossível, por mais que soubesse que ele não merecia tais lágrimas era o sentimento de descaso que mais a machucava.Quantos anos haviam passado juntos?Quantas promessas e planos haviam construído?E tudo jogado fora por motivos tão triviais que lhe parecia que tantos anos de convivência não haviam sido sufcientes para criar um laço seguro.Sentindo-se atordoada percebeu quando o elevador parou, saiu rapidamente e topou com Carol, que viera lhe ajudar com as compras. Chorou em seus braços, sabia que naquele momento seria reconfortada, mesmo sem dizer uma palavra sequer. Carol era uma amiga muito querida, desde os tempos do colégio. Foi sua confidente desde as primeiras paqueras, sabia exatamente o que a amiga sentia, só de olhar para ela. Tanto tempo juntas lhes fazia ter uma cumplicidade única. 
Mais calma, sairam em direção ao mercado, podia-se perceber que as festas de final de ano se aproximavam pelo aumento de pessoas que buscavam mercadorias e lotavam o estabelecimento. Após passar pelos corredores e se certificarem que haviam pegado tudo que precisavam foram em direção aos caixas, pagaram, deixaram as compras em casa e rapidamente chegaram ao aeroporto, Luzia logo chegaria, compraram compraram uma cartolina pra fazer um cartaz de boas vindas e foram ao encontro de Helô, Júlia e Flávia no saguão do aeroporto. Quando Luzia chegou, foi a maior alegria, o maior berreiro, todas chorando, rindo, uma mistura de sentimentos enorme, estavam enfim todas juntas de novo, depois de tanto tempo, parecia que eram ainda aquelas meninas que sentavam no fundo da sala para escrever bilhetinhos na aula de matemática que todas detestavam.
Ao retornarem para o carro começaram os problemas daquele dia, não caberiam as seis garotas dentro do mesmo veiculo, alguém precisaria ir de ônibus, ficou decidido que Helô seguiria com o transporte público e dessa forma não precisaria se preocupar em encaixar todas as bagagens dentro do pequeno espaço do porta-malas. Dani aproveitou o momento para ligar em sua casa, pois Luciana estaria lá organizando a festa de Luzia, que nem desconfiava de nada. Júlia resolveu ir com Helô, para não deixar a amiga sozinha. Luzia tinha tantas novidades para contar!Nem sabiam por onde começar, tantos assuntos. Dani desligou o telefone, quando viu uma mensagem do agora ex namorado, dizendo que precisavam conversar.
Carol estacionou o carro ao perceber que a amiga não conseguira conter as lágrimas. Luzia se inteirou do acontecido e antes que qualquer uma pudesse responder, tomou o celular de Dani em suas mãos e respondeu a mensagem marcando um encontro em nome da amiga em um parque próximo a casa dela, pediu para que as outras entrassem em contato com Helo e Julia para que a encontrassem no determinado parque, ficariam escondidas para armar um plano para o rapaz que tanto machucara a amiga, como faziam quando eram crianças com as "rivais" de conquista. Carol sabendo que Luciana ficaria esperando, secretamente enviou uma mensagem para a amiga lhe convidando para a peripécia enquanto ignoravam os pedidos e as negações de Dani que teimava em dizer que aquilo não seria uma boa ideia
Convencida de que não havia mais jeito, Dani sorriu para as amigas, abraçando-as no banco de trás do carro, enquanto iam rumo ao parque. Não sabia o que iria dizer, nem como fazer para controlar seus impulsos, mas tinha certeza de que estava amparada pelas melhores amigas do mundo. 
 Luzia e Carol começaram a fazer planos malucos, Dani sorria entre as lágrimas, sem saber direito se era o melhor jeito de encontrar com Vinicius. Já nem sabia se o amava de verdade, se um dia o amou. Sua cabeça ficou confusa, as amigas perceberam isso, lhe abraçaram mais forte, em silêncio, pois nada mais tinham para dizer, apenas que estariam ao seu lado.
As amigas chegaram ao parque, Luciana já as esperava com os materiaias que Carol havia pedido pela mensagem, tudo encontrado na casa de Dani. Luzia e Luciana se abraçavam e conversavam enquanto as demais enchiam bexigas com água e corante para bolo que colocaram dentro.
 Helô e Julia que haviam chegado a pouco se certificaram de procurar entre as crianças que jogavam ali próximas algumas que gostariam de arremessar bolas no então convidado que chegaria.
 Dani sentada em um canto ria entre lágrimas enquanto via as amigas concentradas na traquinagem, pensou em sentir pena de Vinicius, mas em instantes viu que não encontrava dentro de si algo que incentivasse esse sentimento, a curiosidade de ver o plano daquelas que tanto amava parecia mais interessante
 Vinicius chegou ao parque, Dani estava completamente sem jeito, não sabia o que falar, muito menos o que iria ouvir. As amigas estavam sentadas afastadas, conseguiam acompanhar o casal atras de algumas árvores.Vinicius lhe pedia desculpa pela ligação da noite anterior, tinha sido um covarde, reconhecia, mas não sabia como fazer. Carol, em cima de uma árvore filmava tudo com seu celular, segundo ela, Dani riria desse vídeo daqui a alguns meses.
Ele estava apaixonado por Brenda, sua amiga da faculdade e não sabia como contar a Dani. Dani ficou extremamente brava!E as juras de amor que lhe fazia toda manhã?Era tudo uma enganação?Não poderia ser!Só podia ser!
 As amigas, que acompanhavam de longe, estavam apreensivas, não sabiam qual o melhor momento para entrarem em ação. Viam Vinicius com a cara mais sonsa do mundo, tentando se desculpar, inventando frases aleatórias, e Dani tento uma crise de choro, logo a Brenda??A menina mais atirada da faculdade!!
Carol precisava agir, e rápido!Deu um grito de cima da árvore, para chamar as crianças que estavam prontas para jogar as bolas sujas de barro em Vinícius, enquanto Flávia passava as bexigas repletas de corante para Carol, que atacaria de lá de cima mesmo. 
Luciana e Luzia deram o sinal para as crianças, ao mesmo tempo que Helo, Julia e Flávia escondidas no lado oposto ao perceberem a movimentação também arremessaram suas bexigas, assim que a primeira bola acertou o rapaz Dani se abaixou o máximo que pode para evitar ficar na zona de tiroteio e rapidamente se protegeu atrás da árvore mais próxima.
 O ataque cessou em segundos mas fora o suficiente para Vinicius ficar em um estado deplorável: sujo, colorido, molhado e totalmente enlameado. Em poucos momentos ele percebeu que fora enganado, que ir até ali não passava de uma armadilha.
-Dani, você é mesmo infantil! Como poderia querer ficar com você se a menção do primeiro problema você reage com brincadeiras estúpidas, olha só o meu estado, minhas roupas, como vou entrar no meu carro desse jeito? 
 Pela primeira vez durante aquela conversa a garota não sentiu vontade de chorar, se levantou, saiu de seu abrigo e teve a coragem que acreditava que não possuia para responder a altura.
- "Dane-se você e o seu carro de merda! Você é o maior covarde que já encontrei em minha vida!Não acredito que perdi 5 anos da minha vida namorando com um perfeito estúpido, filhinho de papai que se acha o tal e no fundo é só mais um galinha que acha que pode fazer o que quiser com todas as mulheres. Você não passa de um idiota!um covarde..saia da minha frente!"
 Vinicius saiu, sem responder, sabia que no fundo, ela estava certa, era um covarde!Entrou no carro sem olhar para trás, enquanto Dani corria para os braços das amigas, as mãos trêmulas, os olhos marejados, mas não era de tristeza, e sim de alívio. Sabia que no fundo, o melhor que poderia fazer era curtir seu dia ao lado das pessoas que mais amava em sua vida.
As garotas todas sujas de corante de bolo, lama e bexigas que estouraram antes de serem lançadas se abraçaram e foram tomar banho na casa de Dani, passariam o final de semana ali, comemorando a amizade que as ligava que sempre era mais forte e duradoura.


By: Eri e Pri durante uma loooonga conversa no MSN